terça-feira, 8 de novembro de 2016

Literatura no Sertão: a poética do colonialismo e do culto à personalidade

 Josessandro Andrade (*)



O colonialismo foi implantado no Brasil em 1500, com a chegada da esquadra de Cabral, que para promover a extração das riquezas naturais, explorava a boa fé dos índios nativos, que deslumbrados com as novidades que eram os homens brancos portugueses, na sua inocência chegavam a trocar pedras preciosas por espelhos. Desta forma o homem indígena valorizava o que vinha de fora, desprezando o que tinha de mais valioso, de mais genuíno e que era seu.

Dentro do pacto colonial firmado entre a coroa portuguesa e a igreja católica ficara acordado que ao império português cabia desenvolver a exploração de mão-de-obra escrava dos índios para extração de produtos naturais, contando com a colaboração do clero católico no sentido de domesticar os nativos , que em troca teria a oportunidade de conquistar entre os índios, novos seguidores para sua religião. Uma mão lavando a outra.

Os indígenas foram perdendo a sua identidade cultural, na medida em que a Companhia de Jesus,que chegara ao Brasil , iniciara um processo de cooptação dos índios, utilizando a literatura como instrumento de catequese. Os Padres Jesuítas estudaram a língua Guarani e organizaram uma gramática desse idioma. Passaram a encenar peças teatrais sacras e a recitarem poemas religiosos para os nativos, a princípio na língua dos índios para comunicarem melhor. Quando perceberam que seus textos já estabelecem uma dominação ideológica sobre o pensamento dos tupi-guaranis, posteriormente, os textos passam a ser falados em língua portuguesa.

Nunca a força literária da palavra fora tão evidente num processo de Colonização cultural como este. Não é toa que numa peça teatral de José de Anchieta , tudo relacionado ao diabo pertence ao índio e tudo aquilo que se refere aos anjos está ligado ao português. Os índios desta forma vão perdendo sua língua, sua religião e vão perdendo toda uma cultura, seus cantos, versos, pinturas e danças, aderindo a cultura do branco, o que vai ser decisivo no seu processo de aniquilamento cultural e no seu extermínio como povo, que vem tendo efeitos até hoje.

Dos milhões que haviam no Brasil no período quinhentista restam poucos milhares nos dias atuais. Obviamente que nenhum povo, cultura ou literatura esta livre de influências externas. Elas são inclusive benéficas, desde que não sejam impostas ou esmaguem a cultura da terra. Na antropofagia de Oswald de Andrade, o Movimento Modernista argumenta que deve-se digerir aquilo vier de fora e servir como elemento de influência, para alimentar a sua obra. Ele defendia aquilo que chamou de “devoração cultural das técnicas importadas para reelaborá-las com autonomia, convertendo-as em produto de exportação".

O escritor e teórico modernista dá assim um teor metafórico a palavra “Antropofagia”, encarada por ele como a deglutição do outro externo, como a influência dos Estados Unidos e da Europa, bem como a do outro interno, como a influência dos índios nativos e dos negros africanos, ambos incorporados a paisagem social brasileira. E construir assim uma estética top de linha, tipo exportação.

Por outro lado, é inegável aquilo que Bakthin observa no seu dialogismo, ou seja a polifonia dos textos, onde uns e outros dialogam e se influenciam. Inicialmente podemos concluir que a literatura tem esta possibilidade de reafirmar ou não a identidade de um povo ou então de estabelecer o domínio de uma nação ou de uma região sobre a outra. Nunca é demais lembrar a afirmação critica de Bakthin, de que “Lingua é poder”. O poder de dominar ou a aceitação de um poder para ser dominado.

Quem se organiza culturalmente e desenvolve uma articulação literária será capaz de se impor e construir um projeto poético ou prosador próprio, suficiente para defender a sobrevivência e o fortalecimento de sua identidade cultural. Para o estudioso Antônio Cândido, as condições necessárias para que se tenha uma literatura de um povo, de uma região ou de uma sociedade são a existência de escritores escrevendo e publicando, uma crítica especializada que estude e discuta esta produção e um público leitor que consuma as obras. Estabelecendo-se desta forma, um povo adquire sua autonomia cultural e personalidade artística.

Há uma relação muito próxima entre colonização e dominação e por consequência, o culto à personalidade do colonizador, do dominador. Culto a personalidade este exercido pelo colonizado, pelo dominado.O culto a personalidade é uma ação que visa exaltar de forma exagerada as virtudes de algo ou de alguém, divulgando–as de forma exageradamente positivista. Assemelha-se à apoteose, que consiste em elevar alguém a condição de Deus, de divindade. Esta estratégia é utilizada em muitas ditaduras, mas também em alguns regimes da democracia.

O culto a personalidade retira do cidadão a sua condição de sujeito pensante e reflexivo, uma vez que coloca-o cultuado acima de tudo e de todos os demais mortais, como ser inquestionável, o que contribui para instalação da burrice. Na literatura, o culto a personalidade se faz presente nas academias, nas associações, na imprensa, nas universidades e no meio literário, através das igrejinhas que se criam privilegiando uma meia dúzia de escritores e críticos.

Os exaltados são sempre os mesmos, ícones que são sacralizados e considerados perfeitos. Temos observado em nossa região sertaneja elementos que nos levam a identificar características de colonialismo literário e do que chamamos de poética do culto à personalidade. Para esta mentalidade e esta prática, a poesia é um privilégio de determinadas terras , clãs e regiões, de determinados ícones, como se a prática do verso e da prosa fosse verdadeira capitania hereditária. Embora saibamos que algumas regiões possam ter uma tendência maior que outras à prática da literatura poética ou prosadora, isso não quer dizer que as outras não possam ter sua produção.

Embora compreendemos que a literatura e sua elaboração também atende a tendências genéticas, acreditamos que, aliado a tudo isto e talvez, o fundamental é o incentivo, o ambiente e um esforço, fruto de um interesse coletivo e pessoal, pois literatura não é só inspiração, mas sobretudo lapidação, trabalho e depuração do texto, escrevendo, refazendo, relendo várias vezes até esgotar a possibilidade de reescrita, e ao longo do tempo melhorando cada vez mais a capacidade de produzir.

Obviamente associado a desenvolvimento de uma boa leitura. A expedição de outro modernista, Mário de Andrade, que esteve no Sertão do Moxotó por volta de 1917, já catalogava aqui sons e cantos genuínos dessa região, como o aboio e o samba de coco. A cidade de Arcoverde foi palco desse registro. De lá prá cá , Arcoverde com o seu samba de coco e sua música vem somando este cabedal aos talentos literários típicos da pluralidade característica do Moxotó como Micheliny Veruscki, Carlos Alberto Cavalcanti, Eraldo Galindo, além dos poetas frequentadores da Bodega da poesia, reduto da poética popular do bairro do São Cristovão, como Irason Bezerra , Rômulo Campos, Leandro Vaz, Micheline e Túlio Araujo, (sem esquecer do Grande Bardo Givaldo Rodrigues),no sentido de oportunizar espaços de expressão estética aos habitantes desta microrregião.

Vale salientar que temos em outra cidade do Sertão do Moxotó, Sertânia, uma forte produção literária e poética, o que leva alguns a classificá-la como berço de escritores, "Cidade de Poetas". Observe ainda que usamos a preposição “de” e não “dos”, pois entende-se aqui que prática poético-literária não é uma exclusividade ou monopólio de quem quer que seja. Por onde passamos, ministrando a oficina “Viagem a uma Cidade de Poetas”, (inclusive recentemente na UEPB - Universidade Estadual da Paraíba),temos dito que toda cidade pode ser “uma Cidade de Poetas”, pois não existe “a Cidade dos Poetas”.

Isto quer dizer que desde que surgiu no mundo grego, a poesia espalhou-se pelo mundo e não é propriedade exclusiva de nenhum povo ou nação. Que cada ser humano pode ser um poeta, que poeta não é apenas quem escreve, mas também que tem sensibilidade para compreender, sentir e admirar a poesia. Pedimos aqui licença ao poeta Pedro Américo para dizer que Sertânia é uma “República de Poesia”, onde convivem todas as formas de produção poética, já que todas elas são válidas e encantadoras, desde a toada boca de grota, a literatura de cordel, aos sonetos , trovas e versos livres.

Nossa matriz literária é abrangente e múltipla , uma fertilidade que acolhe e dá aconchego as mais diversas linguagens. Desta maneira, nossa concepção de poesia é generosa, a achamos tão necessária como uma demanda básica. Ela é uma ferramenta importante no processo de construção da felicidade humana. A Poesia é como uma orquestra sinfônica que deslumbra. Quantas depressões, quantos cânceres, quantos AVC’s podem ser evitados com a magia terapêutica da poesia... Isto pode ser testemunhado pelo o que observou Antonio Andrade Leal (Professor Universitário, pesquisador- Vitória da Conquista-BA): “No Sertão do Moxotó avistei uma cidade, suas ruas, suas praça exalavam poesia. Nas minhas batidas de pernas pelo mundo afora, Sertânia me impressionou pela sua representatividade em se falando de cultura popular. Pequena em território mas grande em poesia, viva Sertânia!! ”.

Por tudo isto não podemos aceitar que queiram nos colocar como satélites poéticos de outras cidades ou regiões. Esta subserviência literária que nos coloca como plateia e não como protagonistas poético-literários só serve a interesses pessoais de grupos, que por intermédio da postura colonializada e do culto à personalidade de outras regiões, tentam através da imitação dos ícones e fórmulas alheias, pegar um atalho na história dos outros, sem ter um projeto literário próprio.

Com sabemos a cópia pouco valor tem, mas apenas o que é original , diferente e raro. O culto a personalidade de outras paragens revela falta de identidade cultural, a busca desenfreada pelo sucesso, suplicando a aceitação dos cultuados para obter um aval num supostamente seleto clube do amém. Pela ótica decorrente disso ai, por exemplo, o conceito de “fenômeno” não pode estar associado a preferência geográfica. Se um poeta é de casa, por mais brilhante que seja não pode ser considerado fenômeno... Mas, Se um que habitar no planeta sideral da poesia, há de ser classificado como “fenomenal”... Esta falta de critérios e de coerência no julgamentos de valor é típica do colonialismo literário e do culto a personalidade, que não obedece a padrões justos, fixos e imparciais, mas a preferências e ligações pessoais dos esquemas frutos do colonialismo e do culto a personalidade.

Para tanto, precisamos fazer aquilo que já nos foi apontado: a luta e defesa dos nossos poetas e escritores. Uma terra que tem Mestres da poesia como Ulysses Lins,”O Trovador do Moxotó”, Waldemar Cordeiro “O Gênio do Lirismo”, Alcides Lopes de Siqueira, “O Menestrel do Sertão", bem como poetas do calibre de Corsino de Brito, Mozart Lopes de Siqueira, Hamilton Rodrigues, Marcos Cordeiro, José Carneiro, Adilson Freire, Carlos Celso, Ésio Rafael, Anacleto Carvalho, Alberto Oliveira, Antônio Belo, Padre Airton Freire, Luiz Carlos Monteiro, Wilson Freire, Jairo Araújo, Walmar, Josimar Matos, Zito Jr, Flávio Magalhães, Genival Pereira(Gato Novo), Luiz Freire, Inácio Siqueira, Luiz Wilson, Antônio Amaral, Duval Brito, Lailton Araujo, André Pinheiro, Kalu Vital, Adilson Medeiros,Liu Pinheiro, Rosa Ignez, Theresinha Lins, Ada Siqueira, Elisa Freire, Maria do Carmo Sampaio, Eliane Freire, Suzana Vasconcelos, Vanuza Silva, Adriana Neves, Bruna Ranyere, Ismênia Thereza, e tantos outros mais não precisa cultuar quem já tem seu próprio e justo prestigio.

Por mais respeito e admiração que possamos ter por poetas de outras cidades não podemos jamais substituir os nossos, que não ficam a dever a nenhuma cidade, posto que já representam a característica, a história e o jeito de ser de um povo. Os nossos vates não são melhores nem piores do que os outros. São diferentes e únicos e como tais devem ser valorizados porque são maravilhosos e porque constituem nossa identidade. E também porque já desfrutam do reconhecimento lá fora, faltando aqui o devido registro de seu potencial.

A não ser que queiramos assinar atestado de “colonizados”, promovendo culto à personalidade de outros lugares, permanecendo na zona de conforto do fácil, do que já é aceito, do que é estabelecido, imitando e copiando, exaltando e cultuando quem já tem o seu sucesso e não necessita mais deste culto à personalidade.Isso não quer dizer de maneira nenhuma que teremos uma postura de xenofobia, de nos fecharmos ao que nos vem de fora, mas de valorizar, de reforçar o nosso, para que possamos dialogar em pé de igualdade com as influências externas que nos agradem.

Neste sentido, convém lutar para que esta valorização não se restrinja ao meio literário. Ela deve ser levada às escolas, à imprensa, à sociedade como um todo. Deve ser apoiada pelo poder público e pelo setor privado, criando uma identidade da cidade intimamente ligada a isso. Envolver toda a cidade, inclusive a zona rural e a periferia. O Moxotó, como Sertão de mil veredas terá assim uma ação pioneira e de vanguarda , que o colocará como Nação altiva, autônoma e sábia. Pressupostos para seu desenvolvimento como sociedade civilizada e sensível.

(*) Josessandro Andrade é professor licenciado em Letras, com pós-graduação em Língua Portuguesa,. Desenvolve ainda atividades de Poeta, Compositor , Autor Teatral e Cordelista. Vencedor do Prêmio Nacional Viva a Leitura, do Ministério da Educação e do Ministério da Cultura.

foto: Sertânia Vip

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